Um tempo para mim

Participei recentemente de uma reunião onde, homens dedicados à promoção do bem estar geral, aconselhavam seu presidente cujo a cabeça pesava preocupada por diversas questões importantes. Apesar de ter sido um momento especial, chamou-me a atenção um destes conselheiros por sua percepção descontraída e livre sobre os diversos problemas apresentados.

Posteriormente, enquanto muitos dedicavam-se ao vinho e à gula, eu continuei a observar meus anfitriões.

– Não provarás da carne meu irmão? Interpelou-me o conselheiro.

– Não como carne, sou vegetariano.

Não queria tecer uma explicação tão completa quanto normalmente faço, então recorri ao rótulo, mesmo que ele não explique direito – na verdade, não me considero vegetariano, mas também não como carne.

– Ah, também não comi carne durante cinco anos.

– Eu não como carne por questões ideológicas – quase comecei a explicação “completa”, mas desisti – e você?

– Religiosas …

“Opa! Parece que há uma coisa interessante aqui”, pensei curioso.

– O que você É meu irmão?

Fiz a pergunta já esperando algum rótulo, algo que usaria para construir todo o seu dossiê baseado em meus preconceitos.

– Eu era budista, antes era espírita, mas agora não sou mais.

Pronto, ai estavam os rótulos! Em minha cabeça já estava montando uma imagem. Mas ainda faltavam alguns aspectos a investigar:

– Não é mais, e É o quê agora?

Emendei na expectativa de mais um rótulo, como antes usando o verbo SER, talvez pensando que o homem pudesse ser algo estático, imutável. Só que não.

Tratei de adiantar os próximos lances no meu xadrez mental: “vai que ele tornou-se ateu; talvez agora SEJA evangélico; ou eu veja alguma nova filosofia de vida”.

– Resolvi dar uma tempo para mim – concluiu ele com um sorriso brilhante – se bem que isso parece meio budista, mas não penso nisso.

E concluiu mesmo! Não sei se por quê minhas perguntas cessaram, ou se era apenas por quê ele não tinha mais o que falar. Com o mesmo sorriso ele, e eu, deixamos que o papo dos outros que estavam à mesa nos envolvesse.

Aquela conversa havia acabado, mas eu ainda tinha muito a debater, ao menos comigo mesmo: “resolvi dar um tempo para mim … “. Esta oração ficou reverberando suavemente em minha mente como uma auto sugestão. O mais curioso, ao menos para mim, é que não estava tentando entender ele – pode ser que ele mesmo não tivesse refletido muito antes de chegar a essa conclusão.  Sei lá! O fato é que fui dormir com aquele pensamento: “dar um tempo para mim“.

Ao retornar para casa fui muito bem recebido com o carinho de minha amada esposa e meus pequenos: ficamos de preguiça; falamos de trivialidades, e de algumas coisas importantes; dei bronca nos meninos; brinquei com eles e os assisti brincarem juntos. Mas, de quando em vez, lembrava da fala do conselheiro.

Por quê não saia da minha cabeça? Simplesmente por quê, de alguma forma, fez todo o sentido para mim.

Ela me fez refletir sobre tudo o que considero importante em minha vida e, se ela também fez algum sentido para você, talvez possa se interessar pela minha jornada e as reflexões que me vieram depois:

Tenho sempre tentado SER alguma coisa e, desde muito cedo, tenho feito – e me feito – perguntas importantes sobre o meu papel no universo, sobre a origem das coisas. Mas a vida de quem busca respostas a estas perguntas é cheia de cobranças e desconfortos. A zona de conforto espiritual, e mental, é desconfortável aos investigadores da Verdade.Mas deixar a zona de conforto gera muita insegurança e confusão. Por isso mesmo nós, os que buscam a Verdade, depois de um tempo, procuramos mestres para nos orientarem. No entanto, quer seja nas religiões, quer seja nas escolas filosóficas (talvez até na ciência), tais mestres, quando existem, não costumam mostrar-se ou reunir discípulos com campanhas de marketing – os que o fazem, geralmente, não o são. Não é fácil encontrar um mestre.

Mas, “Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece”, não é mesmo? Este antigo ditado parece ter me ajudado um pouco – afinal basta tornar-se um bom discípulo. E realmente, ao nos tornamos, ou ao menos estarmos verdadeiros discípulos, passamos a encontrar lições em quase tudo.

Inclusive na leitura de diversos textos – sagrados ou não – onde outros homens registraram o que aprenderam em suas buscas pessoais, e até em revelações divinas. Claro, eu também tenho minhas crenças, e estas trazem seus próprios ensinamentos e sabedorias, mas também dogmas e preconceitos, e acredito que despejá-las aqui não fará bem algum. Se meu exemplo for bom o bastante, talvez elas possam lhe ajudar, mas se sua vontade for sincera, certamente o bem lhe será revelado, apesar de mim.

Alguns desses textos mostraram-me que devemos olhar para dentro de nós mesmos, e não para fora. É claro que temos bons exemplos fora: pessoas que parecem boas o suficiente para serem seguidas e até imitadas. No entanto, ao olhar bem, encontraremos a decepção, veremos que o bom acaba mostrando o mal que tem em si. Quando isso acontece acabamos alimentando sentimentos que não nos fazem bem, e até pode parecer que quase ninguém acredita no que segue, nem mesmo os “MESTRES”. Sendo assim, esforço-me em observar uma lição difícil que está escrita assim: “Pois com o critério com que julgardes, sereis julgados; e com a medida que usardes para medir a outros, igualmente medirão a vós”.

Afinal, todos estamos em busca da felicidade e da autorrealização, mesmo quando projetamos esta felicidade no sofrimento do outro. Desenvolver a compaixão por todos os seres que, como eu, sofrem, mesmo quando eles são a causa do meu sofrimento, é um grande desafio a ser superado.

Em determinado momento a busca passou a SER interior, se é que já foi de outra forma. Se, olhando para o mundo, encontramos decepção, confusão, e sentimentos negativos, talvez o problema (e a solução) não estejam no mundo, mas em mim mesmo. Entendi que deveria tentar melhorar-me, julgando mas a mim mesmo e sendo mesmo crítico com os outros. Ainda não consegui fazer isso (mas estou tentando!), afinal de contas, julgar-se a si próprio não é tarefa fácil, talvez por estarmos mais acostumados a fazê-lo com os outros, ou talvez seja por quê estamos aquém dos nossos próprios critérios.

“Nossos próprios critérios …”. A muito tempo entendi que nos julgamos por referências injustas, e algumas até pouco verdadeiras. Queremos ser como nossos heróis, ser mais corretos que a maioria, mais honestos, ganhar mais e fazer mais … mas quando percebemos que não alcançamos nossos próprios padrões acabamos alimentamos diversos sentimentos negativos tornando-nos menos confiantes, invejosos, e até experimentando culpa de coisas que às vezes nem somos responsáveis.

Pronto! Depois desta jornada toda, sou convidado a assistir a apenas mais uma reunião entre colunas já tão conhecidas, e aqui estou eu, com aquele pensamento que me acompanhará ainda por algum tempo: “resolvi dar um tempo para mim“.

Portanto, talvez eu volte às muitas questões existenciais; talvez ainda tenha muita coisa para me perdoar, mesmo que não tenha culpa alguma; certamente tenho ainda muitas lições a aprender. Mas agora, e mais um pouquinho adiante, vou me presentar com um pequeno descanso de todo o resto: SERei apenas EU, sem muita explicação, apenas RESOLVI DAR UM TEMPO PARA MIM.

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